
Eu achei A Colega Perfeita bem mais puxado para uma espécie de “comédia psicológica” (se é que dá pra chamar assim), porque o enredo usa o humor como uma lente pra olhar pra mente humana, pros relacionamentos tóxicos, pras nossas emoções bagunçadas e até pros mecanismos de defesa que a gente ativa sem perceber. É aquele tipo de filme que faz a gente rir de leve… mas ao mesmo tempo dá um desconforto, porque em vários momentos você se reconhece ali. E isso acaba funcionando como uma forma de alívio, quase como uma catarse, que é quando a gente consegue liberar emoções presas (como tensão, tristeza ou ansiedade) e sente um alívio emocional depois.
Uma coisa que me chamou atenção foi como a agressividade passiva aparece o tempo todo. Não é aquela agressividade escancarada, mas aquela mais sutil, cheia de indiretas, ironias, pequenos cortes emocionais… que vão desgastando a relação aos poucos. E isso é a mais pura realidade, porque muitas pessoas não sabem lidar diretamente com o que sentem, então acabam expressando raiva, frustração ou inveja de formas disfarçadas.
A Devon é uma personagem que, pra mim, representa muito bem a ansiedade e essa busca constante por validação. Ela parece estar sempre tentando ser aceita, agradar, não desagradar… e nisso vai se anulando. Dá pra perceber uma insegurança forte e uma dependência emocional, como se o valor dela estivesse sempre nas mãos do outro. E isso é bem típico de quem tem um padrão de pensamento mais voltado pro “eu não sou suficiente”, então qualquer relação vira quase uma busca constante por aprovação.
Já a Celeste é o oposto na forma, mas no fundo também revela muita coisa mal resolvida. Ela tem comportamentos bem abusivos, uma postura controladora, e traços que lembram um funcionamento mais narcisista, aquela necessidade de se sentir superior, de diminuir o outro, de manter uma certa posição de poder. O que pega muito é a falta de empatia… ela parece não conseguir (ou não querer) acessar o sentimento do outro.
E a inveja dela em relação à Devon fica ainda mais forte quando a gente olha pro contexto familiar. Enquanto a Devon vem de uma família estruturada, amorosa, onde ela tem segurança emocional, pais presentes, que demonstram amor, e um irmão que é praticamente seu melhor amigo, a Celeste vive o oposto. A família dela é completamente desestruturada… um pai ausente e uma mãe adoecida, e nenhuma base de segurança. Então não é só inveja superficial… é uma inveja profunda do que a Devon representa, que é estabilidade, pertencimento e afeto. E isso mexe muito com ela, porque escancara exatamente o que faltou em sua própria história. Só que, ao invés de reconhecer essa dor, ela transforma tudo isso em ataque e controle.

Antes de finalizar essa critica, preciso falar sobre uma reviravolta interessante de cada personagem, que vai encaixar bem essa dinâmica. A Celeste, como muitas pessoas com esse padrão mais tóxico e traços narcisistas, acaba colhendo o que planta. Ela termina só emocionalmente e muito mal-sucedida. Já a Devon também enfrenta consequências, mas por um outro caminho… na dinâmica ela se colocou em segundo plano por muito tempo, foi sendo provocada, acumulando ressentimento… até que tudo isso transbordou. E quando veio, veio de forma explosiva, agressiva e impulsiva. Tudo aquilo que ela engolia de forma passiva acabou sendo colocado pra fora de uma vez só, e isso gerou uma consequência séria. Como Terapeuta Cognitiva-Comportamental, digo de forma clássica, o que não é comunicado de forma saudável, uma hora explode de forma desregulada.
Mas é aí que entra o crescimento dela, em uma nova relação, quando alguém tenta ultrapassar seus limites, ela consegue, pela primeira vez, se posicionar, dizer “não” e se respeitar. E isso muda tudo. Porque essa pessoa, que poderia se tornar mais um vínculo abusivo, acaba entendendo os limites dela. Com o tempo, a relação se reorganiza de forma mais saudável, e ali nasce até uma amizade.
No fim, fica um aprendizado bem claro… A gente precisa aprender a dizer “não”, estabelecer limites saudáveis, não só pela nossa proteção emocional, mas também como uma forma de educar o outro. Porque quando tudo é permitido, o outro não aprende, mas quando há limites, existe a chance de crescimento dos dois lados.
Vale a pena assistir?
Vale a pena assistir A Colega Perfeita para quem gosta de filmes mais profundos, pra quem curte analisar mais a fundo e se interessa por histórias que fazem refletir. Só não é um filme tão leve, porque toca em temas bem reais e em alguns momentos pode até gerar um certo desconforto no telespectador.
