
Os poemas de Homero sempre foram de grande importância para a literatura e também serviram de inspiração para diversos filmes que dominam a indústria cinematográfica até os dias de hoje. A história narra a viagem de Odisseu, herói da Guerra de Troia, que tem apenas um objetivo: voltar para sua casa e para os braços de sua mulher, Penélope, em seu reino. Porém, o caminho se revela muito mais complicado do que parece. Christopher Nolan sempre demonstrou interesse em criar sua própria versão de Odisseia, principalmente por meio de elementos presentes em obras como Interestelar (2014), que já carregava algumas características da famosa história de Homero. Portanto, não era de se esperar nada menos do que um grande épico para aquela que pode ser considerada uma das maiores obras de sua carreira. E, apesar de suas qualidades, o filme certamente possui alguns defeitos. A direção de Christopher Nolan é simplesmente impecável e também prova como o diretor consegue trabalhar com estilos completamente diferentes sem deixar de se renovar. Alguns exemplos são Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), A Origem (2010) e, por último, Oppenheimer (2023). Agora faço uma pergunta: o que todos esses filmes têm em comum? Simples: praticamente nada além do diretor. São poucos os cineastas que conseguem sair tantas vezes da própria zona de conforto e ainda entregar obras tão marcantes com propostas completamente diferentes. Aqui, Nolan dá um show em praticamente todas as cenas. Cada imagem mostrada na tela parece um quadro de arte diferente, e o mais impressionante é que a maioria delas não parece estar ali apenas para enfeitar o filme. Existe uma função narrativa e estética muito clara em boa parte daquilo que vemos. Isso é ainda mais impressionante quando lembramos que estamos falando de um filme com quase três horas de duração. São quase três horas em que você permanece completamente imerso, sem sentir que está perdendo alguma coisa por um minuto sequer.
O elenco também é simplesmente impecável. Cada ator entrega uma boa interpretação em seus respectivos papéis, embora eu tenha algumas ressalvas em relação a Telêmaco e Calipso, por motivos diferentes. Tom Holland parece não ter encontrado completamente o tom do personagem, enquanto Charlize Theron recebeu um material que não faz justiça ao potencial de sua personagem. Na verdade, esse é um problema que atinge boa parte do elenco: os atores são excelentes, mas o roteiro muitas vezes não oferece material à altura deles. Mesmo com essa questão, Matt Damon simplesmente brilha como Odisseu. Em diversas cenas, eu realmente esqueci que estava assistindo a um ator interpretando um personagem e passei a enxergar apenas Odisseu diante de mim. Essa capacidade de desaparecer dentro do papel é uma das maiores qualidades de sua atuação. Um destaque especial vai para Anne Hathaway, que dá um show como Penélope. Zendaya possui poucos momentos em tela, mas também consegue brilhar como Atena, mesmo com algumas escolhas de roteiro que me incomodaram. Lupita Nyong'o também chama bastante atenção ao interpretar dois papéis: Helena de Troia e Clitemnestra, uma escolha que certamente pode gerar discussões. O elenco consegue amenizar o maior defeito do filme: o roteiro.

Como disse anteriormente, o roteiro é muito fraco para um filme tão grandioso quanto A Odisseia. E isso acontece por algo muito simples, mas essencial: a dificuldade em fazer com que o público realmente simpatize com os personagens. Dependendo do momento, o carisma deles e o de uma porta aqui de casa parecem estar praticamente no mesmo nível. Um ótimo exemplo disso é o próprio Odisseu. Nos poemas de Homero, ele é conhecido justamente por sua inteligência e capacidade de encontrar soluções para situações aparentemente impossíveis. Foi ele, inclusive, quem teve a ideia do famoso Cavalo de Troia. Grande parte da jornada de Odisseia acontece justamente porque Odisseu precisa usar sua inteligência para sobreviver e encontrar uma maneira de voltar para casa. No filme, porém, essa característica parece ser deixada de lado durante boa parte da história. Odisseu utiliza sua inteligência de maneira mais evidente apenas na metade e no final da narrativa, o que é estranho, principalmente porque muitas das suas decisões ruins na história original possuem consequências e motivos importantes para o desenvolvimento do personagem. Eu entendo a visão de Nolan de não glorificar a malandragem de Odisseu e de mostrar sua incapacidade diante dos deuses. E devo dizer que a forma como isso foi feito é, por si só, digna de aplausos. Nolan não transforma simplesmente Odisseu em um herói perfeito e inteligente que sempre possui uma resposta para tudo. Pelo contrário, ele mostra um homem que, apesar de toda a sua inteligência, ainda é pequeno diante de forças que estão muito acima dele. Essa escolha pode incomodar quem esperava uma adaptação mais próxima da personalidade tradicional do personagem, mas, ao mesmo tempo, cria uma interpretação diferente e interessante para o mito. O problema é que essa decisão também contribui para que Odisseu pareça menos carismático em alguns momentos, principalmente porque o roteiro nem sempre consegue mostrar com clareza o conflito por trás de suas escolhas.
Vale a pena assistir?

No final, há uma cena que resume toda a experiência sensorial de assistir a esse filme. Quando Odisseu arma seu arco diante dos pretendentes e emite um som com a corda, que, de acordo com ele, é um chamado para um combate honrado, o filme parece pegar tudo aquilo que construiu desde o início e colocar naquele momento. É nesse instante que A Odisseia mostra exatamente aquilo que Nolan queria construir: um épico moderno baseado em uma das histórias mais antigas da humanidade. A escala, a música, a fotografia, os personagens e toda a construção da jornada de Odisseu finalmente se encontram em uma única cena. Com tudo o que disse, obviamente, meu veredito é: sim! Vale a pena assistir a essa obra. Apesar dos problemas de roteiro e de algumas escolhas que podem dividir opiniões, A Odisseia consegue entregar uma experiência cinematográfica grandiosa, visualmente impressionante e digna do tamanho da história que está adaptando. E, para terminar com uma aposta minha: não me surpreenderia nem um pouco se A Odisseia aparecesse com força na próxima temporada do Oscar.
